Viver a catástrofe da respiração, entre utopia e distopia

Entrega dos artigos: 15 de Setembro 2020

Saída do número: Dezembro 2020

Como viver em tempos de crise? E como podem a filosofia e as ciências sociais ajudar-nos a atravessar tempos de grande exposição individual e colectiva à morte? Que atitudes nos permitem desenvolver perante o medo e o risco – presente sempre que o medo se torna um fenómeno colectivo – de que a sociedade seja completamente devorada por ele? Como desenvolver uma atitude crítica num momento de grande incerteza pessoal e social, sobretudo perante fenómenos, de resto bem descritos por Foucault, onde um poder ou uma determinada disciplina científica pretende conduzir por conta própria a sociedade, fora das regras estabelecidas e no interior de um espaço de emergência?

São estas as perguntas que nos foram colocadas pela recente crise pandémica, mas são as mesmas que, no fundo, sempre se colocam à humanidade perante uma catástrofe, seja ela provocada pela natureza ou pelo homem. E são as perguntas que há bastante tempo nos são colocadas pela dramática crise ecológica e política vivida pelo nosso planeta.

Neste sentido, a Grande Pandemia de 2020 parece ter funcionado como um grande catalisador apocalíptico de todas as crises que já atravessavam a nossa sociedade globalizada: como se tivesse revelado as fraquezas, as linhas de conflito escondidas, a “falta de respiração” que o nosso tempo já vivia antes. Quando o mundo entra numa nova época, é todo um horizonte cultural que faz as contas consigo mesmo, com as suas técnicas de sobrevivência e de repensamento: como pensar, por exemplo, a relação entre “economia” e “ecologia” a partir do momento em que o espaço doméstico, a casa – o oikos – se torna cada vez mais o lugar onde se contém a precariedade da existência e onde também o espaço público acaba por ter que ser confinado?

A nossa maneira de pensar o futuro tem de qualquer forma efeitos imediatos no presente que vivemos. A utopia e a distopia constituem, neste sentido, duas maneiras de pensar – quer no âmbito da filosofia, quer no das ciências sociais e das artes – formas para voltar a imaginar e a reabrir desde já as nossas condições de vida colectiva e individual.

O Thomas Project acompanhou a crise pandémica através de um mapa de leituras e de um mapa de perguntas. É a partir destes dois arquivos heterotópicos, em que podemos seguir saberes diferentes a enfrentar-se num momento de catástrofe, que propomos neste número reflectir sobre as diferentes maneiras de respirar, alternativas às anteriores, que possam permitir a todas e todos respirar. Começando pelo papel que podemos e devemos agora imaginar para as próprias humanidades, como instrumentos de investigação próximos da existência, geradores de técnicas de vida e de pontos de interrogação capazes de nos conduzir juntos para além da incerteza do nosso presente.